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O movimento estudantil e sua expressão em Juiz de Fora

Por Tamiris Toschi

O histórico do movimento estudantil (ME) é caracterizado por lutas, manifestações e grandes mobilizações pela justiça social no Brasil. Começou a se articular como entidade em 1937 com a criação da União Nacional dos Estudantes (UNE) e desde então teve papel importante nas questões sociais do país.

Passeata do "Cem mil" em 1968 - Foto disponível na internet em educacao.uol.com.br

Passeata dos “Cem mil” em 1968 – Foto disponível em educacao.uol.com.br

De acordo com o histórico da entidade , as lutas mais significativas começaram no combate ao nazi-facismo no Brasil durante a segunda Guerra Mundial, passando pela luta na campanha “O Petróleo é nosso” . Na ditadura militar (1964 à 1985) o movimento estudantil sofreu grande repressão chegando a perder sua legalidade, contudo não deixou de se manifestar.  Outro momento importante foi a luta pela redemocratização durante a década de 80, no qual teve significativa representação, sendo também responsável pela articulação do restante da população.

"Caras pintadas" na campanha pelo impeachement - Disponível em Infoescola.com

“Caras pintadas” na campanha pelo impeachement – Disponível em Infoescola.com

Com a democracia restabelecida o movimento não deixou de atuar.  Durante a presidência de Fernando Collor (1990 à 1992), acusado de inúmeras corrupções,  os estudantes foram para ruas na mobilização que ficou conhecida como “caras pintadas”, pedindo o impeachment  do presidente.

Em 2009 uma nova entidade foi criada, a Assembleia Nacional dos Estudantes-Livre (ANEL), em paralela as atividades da UNE.

Articulação do movimento estudantil na Facom

“O DA de comunicação teve um papel importantíssimo na discussão dos avanços que a gente precisava para redemocratizar o Brasil”.

“O DA de comunicação teve um papel importantíssimo na discussão dos avanços que a gente precisava para redemocratizar o Brasil”.

Apesar de o movimento estudantil ter se tornado ilegal no período da ditadura, isso não foi suficiente para calar os jovens. O jornalista Jorge Sanglard, formado na Faculdade de Comunicação da UFJF, afirma que neste período o movimento disseminava cultura e reflexão por meio de suas atividades.

Neste período o jornalista relata sobre a produção do jornal do movimento estudantil chamado “Bar Brazil” que teve três tiragens. “É um jornal que teve um papel importante, porque foi um jornal de protesto. Como Pasquim fazia em termos nacionais, a gente fazia em termos locais um jornal de discussão, de oposição e debate de tudo que estava acontecendo no Brasil.” Sanglard ainda conta que naquele período existia um núcleo cultural que funcionava no centro da cidade de Juiz de Fora e era ligado ao Diretório Central de Estudantes (DCE) e aos Diretórios Acadêmicos (Das). Neste ambiente funcionava o núcleo de poesia, o jornal, o núcleo de música “Som Aberto”, o Centro de Cultura e a produção da revista cultural “Delírio” que chegou a ser considerada na época uma das maiores do país. Contudo, Sanglard relata que na década de 70 quando o candidato de direita Mello Reis assumiu a prefeitura e Paschoal Motezano, também de direita, assumiu a diretoria do DCE, as atividades do núcleo passaram a ser dificultadas.

Revista "Bar Brazil"  - Arquivo pessoal de Ivan Barbosa disponível em ufjf.com/ppghistoria

Revista “Bar Brazil” – Arquivo pessoal de Ivan Barbosa disponível em ufjf.com/ppghistoria

Segundo o jornalista esta mobilização cultural foi uma forma que os estudantes encontraram para a reestruturação do movimento estudantil. Mas muitas das atividades eram vigiadas e oprimidas pelos militares da ditadura, principalmente depois de 1971 até 1976 quando a opressão foi mais violenta.

Sanglard afirma a reorganização do movimento estudantil foi o ponto de partida para organização do movimento de oposição sindical. Em Juiz de Fora a primeira oposição sindical a se forma foi o têxtil, o jornalista conta que os estudantes trouxeram um ilustrador famoso de Belo Horizonte que fez um quadrinho onde o presidente, há muitos anos, do sindicato têxtil era “todos os personagens de um circo inclusive o palhaço e no final a plateia o lançava fora do circo com um canhão. O quadrinho foi distribuído para a classe gerando um grande burburinho e mobilização levando a oposição pela primeira vez a ganhar a eleição do sindicato” conta o jornalista. O mesmo foi feito no sindicato dos transportes começando assim a articulação dos sindicatos e do próprio movimento estudantil.

O jornalista conta que o DA de Comunicação teve uma participação importante no movimento estudantil em Juiz de Fora e deram a ele o nome de “Wladimir Herzog”, jornalista recentemente morto na época pela ditadura. Além disso, o jornalista ressalta que o DA era formado por estudantes do “novo jornalismo” de oposição.  Sanglard conta que “Naquela época existiam dois jornais, o Diário da Tarde e o Diário Mercantil, todos dois do Diário Associados. O Diário Mercantil era a geração dos jornalistas velhos, de antes de 1964. O Diário da Tarde eram jornalista mais novos, com mulheres trabalhando, em sua maioria, recém saídos da universidade e mais próximos dos estudantes. Como o Mercantil era bem ativo assim como o movimento estudantil, acontecia muita projeção na mídia das atividades dos estudantes.”

Poesias distribuídas durante Ditadura Militar - Arquivo pessoal de Ivan Barbosa disponível em ufjf.com/ppghistoria

Poesias distribuídas durante Ditadura Militar – Arquivo pessoal de Ivan Barbosa disponível em ufjf.com/ppghistoria

Sanglard foi presidente do DA de comunicação no final da década de 70 e afirma que os DAs começaram a participar mais das atividades do DCE e tiveram grande expressão na mobilização politica da população, alinhando politica e cultura. O jornalista relata que o DA foi muito atuante na época da discussão da Constituinte (início da década de 80), marco entre a ditadura e a democracia,  montando uma revista chamada “Aqui ó” discutindo a proposta e trazendo o ponto de vista do exilados. O jornalista afirma que “o DA de comunicação teve um papel importantíssimo na discussão dos avanços que a gente precisava para redemocratizar o Brasil”.

Para Sanglard o movimento estudantil não perdeu força, na verdade mudou de foco com o aumento da mobilização social e sindical no final da década de 80. “O movimento estudantil lutava pela democratização da universidade e não seria possível isso vivendo em uma ditatura. Para conseguirem isso foi necessário mudar o Brasil.” O jornalista acredita que hoje o movimento voltou suas lutas internamente para melhorias dentro da Universidade, contudo ainda existem lutas externas antigas que ainda devem ser pautadas.

Face atual do movimento estudantil na Facom

Paula Duarte mostra meterias de campanhas e manifestações.

Paula Duarte mostra materias de campanhas e manifestações.

O movimento estudantil foi mudando seu foco durante os anos e ampliando suas lutas. A estudante da Facom Paula Duarte teve uma educação voltada para a mobilização politica. Envolvendo-se desde a época do colégio com questões e manifestações por direitos sociais.

Quando em 2008 entrou para Universidade, percebeu na uma apatia da faculdade com o movimento estudantil. Segundo Paula havia o costume de realizar uma convenção de chapas, na qual os interessados se reuniam e quem quisesse fazer parte do DA fazia, não havendo debates de ideias e nem disputas. Neste período montou um chapa ainda caloura para fazer oposição a esta eleição de chapa única e estagnação do movimento estudantil na Faculdade. Perderam a eleição, contudo, aumentou consideravelmente a quantidade de votantes.

A chapa eleita, por sua vez, convidou no ano seguinte a integrarem o DA, segundo Paula, havia muita divergência por haver alguns integrantes pertencentes a UNE e outros a ANEL. Porém, a estudante ressalta coisas importantes que construíram juntos. “Na época houve a queda da obrigatoriedade do diploma e nós trouxemos o jornalista da revista Caros Amigos, Marcos Ibordi. Foi incrível, o anfiteatro ficou lotado e ele tinha uma opinião que os jornalistas precisavam se organizar como categoria, como sindicato.” Segundo a estudante este momento foi importante porque voltaram à atenção para o movimento estudantil na faculdade, conseguiram voltar a realizar festas, principal fonte de renda do movimento do estudantil, com comprometimento cultural.

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Paula ainda afirma, contudo, que só o DA não basta. Para a estudante, quem se envolve no movimento estudantil acredita em um proposito maior de sociedade e por fazer parte de uma entidade maior. Outro ponto levantado por Paula é que a participação em um movimento pode parecer cruel, pois nem sempre há vitória, contudo, a jovem acredita que o importante é a organização e fortalecimento da representação. Para a estudante a juventude hoje parece descrente do movimento estudantil, mas as manifestações do ano passado mostraram que ainda tem energia, contudo, inexperiente e sem embasamento. Paula, porém, possui esperanças da volta de um movimento estudantil forte e combativo no Brasil.

Confira a entrevista completa com Paula Duarte:

Bruno Stephan, atual presidente do Diretório Acadêmico da Facom, afirma que entrar para o DA é uma forma de promover a transformação na faculdade. O estudante afirma que a principal bandeira defendida nesta gestão é o aluno, “a gente tem um gestão mais voltada para questões internas da faculdade comparada as outras gestões que tinha uma participação externa maior. Mas acabávamos perdendo uma ponte de ligação com a direção, porque o antigo diretório não era tão participativo”.  Contudo, Stephan afirma que o diretório tenta sempre participar de questões externas a faculdade nas reuniões dos conselhos de DAs da Universidade, na qual o poder deliberativa, para ele, chega a ser maior que o DCE.

Nome do Diretório Acadêmico dado após a morte do jornalista Vladimir Herzog na época da ditadura militar.

Nome do Diretório Acadêmico dado após a morte do jornalista Vladimir Herzog na época da ditadura militar.

Confira entrevista completa de Bruno Stephan:

As eleições para o Diretório Acadêmico são anuais e qualquer estudante da graduação pode montar um chapa e se candidatar.

Quer saber mais sobre o assunto? Confira os vídeo abaixo sobre o tema:

Documentário sobre o movimento estudantil produzido pela TV Câmara

Este segundo vídeo mostra um entrevista com a pesquisadora Gislene Lacerda autora do Livro “Memórias de esquerda – O movimento estudantil em Juiz de Fora de 1974 a 1985” para o programa Culto Circuito da Facom UFJF.

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