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50 anos do Golpe Militar: conhecer para não repetir

por Letycia Cardoso e Pedro Miranda

Postado em 31/03/2014

Palavra "Lute" recebe o público na exposição "Resistir é preciso" / Foto: Letycia Cardoso

No dia 31 de março de 1964, um golpe de estado instaurou o regime militar no Brasil. Os anos seguintes foram de profundas mudanças sociais e políticas no país. Foram dias turbulentos, principalmente, para o exercício do jornalismo e da liberdade expressão.

Durante o regime, cerca de 23 jornalistas que faziam oposição ao governo foram torturados, mortos ou desapareceram. Um dos casos mais emblemáticos foi o do jornalista e professor da Universidade de São Paulo, Vladimir Herzog.  Ele foi preso, torturado e teve a morte forjada pelo regime, que afirmou que a causa do falecimento teria sido suicídio por enforcamento. Porém, no dia 15 de março de 2013, após uma batalha judicial de anos, um novo atestado de óbito foi entregue à família de Herzog, substituindo a causa da morte anterior por “lesões e maus tratos”.

Para o jornalista e teatrólogo José Luiz Ribeiro, o golpe de 64 aconteceu em etapas. Logo no início as pessoas estavam dividas em relação à aprovação ou não do regime. Nesse período os generais tentavam ter ações mais liberais para que fossem vistos com bons olhos pela população. Depois desse momento, a partir de 1968, o regime ficou mais rígido, agora com uma censura mais forte.              “Em 64, quando aconteceu a quartelada, havia por parte das pessoas muita divisão. Principalmente, se você for pensar em Juiz de Fora que tinha uma elite muito forte. Porém, houve um momento depois em que a ditadura começa, e eles caçavam as pessoas”, comenta o jornalista.

Outros jornalistas também contam suas vivências na imprensa juiz-forana durante os anos de chumbo. Wilson Cid trabalhava no Diário dos Associados e relata que, a princípio, a censura não se fez explícita, já que os jornalistas circulavam livremente pela 4ª Região Militar, tendo acesso a todas as ligações dos generais. Laerte Braga, que trabalhava nas rádios Industrial e Difusora, além de na Gazeta Comercial, ressalta que a liberdade oferecida tinha segundas intenções: “Eles tinham interesse que se divulgasse o que estava acontecendo, mas até um determinado ponto. A partir desse ponto não se podia falar nada. Isso era para criar um clima de apoio ao golpe, porque a popularidade de Jango era muito grande.”

Entretanto, a maioria dos donos de veículos de comunicação pertenciam à parcela da população que apoiava a Ditadura Militar, considerando-a uma revolução contra o comunismo. Por tal motivo, os jornais publicavam conteúdos favoráveis aos militares. Braga lembra do primeiro dia da mudança no governo, em que foi proibido de fazer os noticiários radiofônicos pelos quais era responsável, já que seus chefes tinham conhecimento de sua ligação com a esquerda. Ele também conta sobre colegas que, mesmo sendo contra tudo o que estava acontecendo, eram obrigados a publicar o que os militares desejavam. Cid já recorda de ações de resistência nas redações: quando alguma parte do texto era censurada, a lacuna era preenchida por receitas de culinária ou pedaços de poesia.

Ambos os jornalistas têm o ano de 1968 como um marco. A censura passou a ser dupla: da polícia e dos próprios jornais. As redações tinham profissionais a serviço do governo, que cumpriam expediente normal, cuja função era dizer o que podia ou não ser publicado. A cultura também foi podada neste período. Segundo José Luiz Ribeiro, atualmente diretor do grupo de teatro Divulgação, naquele período várias produções do grupo foram censuradas. “A gente tinha que mandar o texto para a censura, esperar que eles devolvessem. Eu tive, em 1969, um texto (“O diário de um louco”) que foi proibido na hora da estreia. Chegou um policial e disse o texto não foi aprovado. Tivemos que mandar o público todo embora, o que íamos fazer?”, conclui. Ouça abaixo a íntegra da entrevista com José Luiz Ribeiro.

Na tentativa de burlar a censura, é que as adaptações nos espetáculos e texto jornalísticos surgem como uma forma de resistência ao regime. Um dos exemplos mais marcantes desse período foi o jornal “O Pasquim”, do Rio de Janeiro. Formado por grandes nomes do jornalismo e colaboradores que faziam oposição aos ideias do sistema. O jornal foi censurado diversas vezes e teve a redação toda presa, numa tentativa de coibir a publicação do semanal. Saiba mais sobre esse episódio no vídeo.

 

50 anos depois

Meio século é pouco tempo para que a sociedade cure as feridas geradas por um período histórico de cerceamento de liberdades e com muita violência. A Ditadura Militar deixou mortos, marcas e memórias. Por isso, merece ser estudada e lembrada para que a história não se repita.

O Centro Cultural Banco do Brasil está com a exposição “Resistir é preciso” em cartaz até 28 de abril. O projeto é uma idealização do Instituto Vladimir Herzog, cujo objetivo é contar a história da resistência no período histórico entre 1964 e 1985. A exposição reune diferentes obras de arte que denunciam os crimes da ditadura e mostram o desejo dos artistas pela democracia, além disso resgata a memória de atuação da imprensa brasileira sob severas condições.

Ao adentrar um espaço tão rico em cultura do Rio de Janeiro como o CCBB, encontra-se uma linha do tempo, com recortes de cada acontecimento relevante dos anos de chumbo. Frente aos quadros, olhos arregalados, ouvidos atentos e uma voz trazendo o passado para o presente: são alunos e professores que trazem a sala de aula para fora da escola, fazendo com que aquele momento que se passou quando os jovens nem pensavam em nascer emocione e arrepie.

Continuando o passeio, é possível ver arte abstrata; documentários sobre o período; citações de poetas, cantores e jornalistas adesivadas nas paredes; fotos de manifestações; capas de jornais de resistência; sala interativa em homenagem aos que morreram lutando contra a repressão e também uma mensagem final para ficar guardada no interior de cada visitante: a palavra lute, com letras vermelhas, em escultura de tamanho gigante.

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Lembrança da mídia

O jornal juiz-forano Tribuna de Minas criou um aplicativo em que seus leitores têm acesso à série de reportagens produzidas a respeito dos 50 anos da Ditadura Militar. Assim como ele, outros veículos preparam coberturas especiais para a data. A Mídia NINJA pretende utilizar sua plataforma digital para cobrir diversos eventos e manifestações que acontecerão em todo o país.

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One Comment
  1. Sonia Cardoso permalink

    Excelente matéria. Não podemos deixar cair no esquecimentos as atrocidades cometidas naquela época. Mais ainda, não podemos deixar que tal regime retorne. LUTE! VIVA A DEMOCRACIA!

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