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Memória em bits

Daisy Cabral

Publicado em 14/08/2013

Ilustração: internet

Ilustração: internet

Você sabe o número de telefone da sua mãe, namorada, irmão ou melhor amiga, de cabeça? Se lembra de alguma frase ou poema que tenha gostado? Provavelmente você me responderia não, ou não tenho certeza ou talvez; então você diria: posso olhar na agenda do meu celular e te respondo? Digito umas palavras em algum site de buscas e encontro aquele poema ou aquela frase, simples. Nossa geração não tem memória. Fizemos das tecnologias mais que extensões de nós, como acreditava McLuhan, elas se tornaram parte de nós, mais que necessárias, vitais.

O que aconteceria se você perdesse seu celular agora? Você provavelmente exclamaria: Minha vida estava naquele aparelho! Acredite, eu te entendo, também faço parte da geração bits. Computadores, tablets, celulares, cada vez mais interativos e rápidos. Você está na mesa de um restaurante com alguns amigos e no whatsapp pelo celular com outros. Mais importante do que estar em algum lugar, é postar a foto dele no instagram.
Foto: internet

Foto: internet

Não precisamos mais lembrar de números, endereços, horários, nomes, a internet nos dá tudo isso em qualquer lugar a qualquer momento.
Aprendemos, nos adaptamos e agora não conseguimos lembrar como é a vida sem os bits, sem o mundo tecnológico, estamos inseridos em rede e é assim que queremos ficar.
Albert Einsten divagava no início do século XX:”Eu temo o dia em que a tecnologia vai ultrapassar a interatividade humana. O mundo terá uma geração de idiotas”, por menores à parte, a profecia se realizou. Um aspecto dessa questão trouxe uma pesquisadora britânica à Juiz de Fora, Anna Reading, PhD pela Universidade de Westminster, no Reino Unido, que estuda a memória do ponto de vista social e cultural, e uma de suas propostas para a compreensão dos mecanismos que compõem as lembranças e recordações na atualidade é o conceito de “memória globital”. “É uma combinação da palavra ‘global’ com o termo ‘bit’, a unidade básica de informação na computação e na comunicação digital.
Foto: Daisy Cabral

Foto: Daisy Cabral

Durante a palestra desta tarde, Anna sugeriu uma ideia de globalização de uma forma desigual, já que o acesso às tecnologias de mídia
digital e à conectividade não é uniforme. De acordo com a pesquisadora, o desenvolvimento meteórico dos gadgets (dispositivos móveis de comunicação) modificou a concepção do tempo e da vivência do presente na atualidade. “Por meio deles, em particular os smartphones, podemos compartilhar o melhor e o pior do conhecimento humano ao mesmo passo que o experienciamos. Mas ao mesmo tempo, perdemos outras habilidades cognitivas e culturais: se confiamos na memória da Terra que o Google Earth oferece, o que acontecerá quando tivermos que seguir um caminho nos orientando pelas estrelas ou usando um mapa de papel?”, questionou aos presentes.

Foto: Daisy Cabral

Foto: Daisy Cabral

O tema da palestra foi “Memória no espaço digital: materialidade, protesto e memória digital” , Anna Reading enfatiza que essa “memória em nuvem” tem um preço social e ambiental. Ela explica que “vestimos” tecnologias, “na maioria das vezes a última coisa que as pessoas tocam antes de dormir são seus celulares. Carregamos conosco, fisicamente, o conhecimento conectivo em livros digitalizados, arquivos de jornais, imagens de museus, músicas, tudo que podemos acessar pelo celular. Mas as memórias ‘vestíveis’ também têm seu preço: pensamos que elas são gratuitas, mas toda vez que acessamos a internet, postamos uma imagem no Facebook, também estamos permitindo que sejamos acessados.” Além desse “prejuízo” social de perdemos nossas memórias a terceiros, há também um prejuízo ao planeta.
Todos os recursos para fazer milhões de aparatos tecnológicos funcionarem e triilhões de dados trafegarem são retirados da terra: minérios, água, luz ( de acordo com Anna, a energia elétrica gasta por uma indústria tecnológica chega a ser dez vezes mair do que a da população a sua volta), dentre inúmeros outros. Nossa memória se tornou digital e muito cara.
Foto: Daisy Cabral

Anna Reading e intérprete em palestra no MAMM      (Foto: Daisy Cabral)

Links relacionados:
Museu de Arte Moderna Murilo Mendes
King’s College London
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