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Entrevista Cintia Brugiolo – atriz-pesquisadora de Juiz de Fora.

Cintia Brugiolo

Cintia Brugiolo

Cintia Brugiolo é jornalista formada na Universidade Federal de Juiz de Fora – UFJF e atriz-pesquisadora desde 1994. É pós-graduada em Comunicação e Arte do Ator, também pela UFJF. Sua trajetória nas artes cênicas começou com as Aulas Especializadas de Teatro Academia, e, em 1995, ingressou na Cia. de Atores Academia (ex-Grupo TIA), onde ficou onde ficou até 2010, e é integrante do grupo Contaê Histórias. Foi co-fundadora da Casa de Cultura Estação Palco e possui experiência como arteducadora, professora de teatro e produtora cultural.
A artista, a partir de uma análise dos Festivais de Teatro promovidos pela PJF,  faz comentários sobre a formação do ator, e anuncia reflexões sobre a evolução do cenário cultural em Juiz de Fora nos últimos anos e, ainda, compara a importância e finalidade de cada um dos festivas.
“O Festival Nacional de Teatro de Juiz de Fora permite a oxigenação da cultura na cidade, ao trazer espetáculos de diversas partes do país (…) Já o Festival de Cenas Curtas abre espaço para os artistas locais criarem, experimentarem, se arriscarem, se encontrarem, se ajudarem… Essas cenas curtas são o embrião de ideias, linguagens e artistas.”
Confira a entrevista na íntegra:
JF Hipermídia – Como você enxerga a cena teatral hoje em Juiz de Fora? Depois de 7 anos de Festival Nacional de Teatro em Juiz de Fora, tivemos progressos e/ou regressos?
 
Cintia – O panorama teatral em Juiz de Fora vem, sem dúvida, melhorando significativamente. Acho que há avanços na troca entre os grupos teatrais, que eram muito isolados. Percebo uma busca por novas linguagens. Há mais cursos funcionando, com mais alunos. E os alunos de cinco, dez anos atrás são hoje grandes realizadores. O CCBM foi reinaugurado em 2001, o que foi decisivo para a cidade – ele é democrático, tanto pela possibilidade de acesso por todos os artistas que precisem/desejem um palco, quanto pela mobilidade de ocupação cênica (embora, infelizmente, esteja engessado num palco italiano, quando a ideia original não era essa; mas ainda é possível experimentar outras formas), e também pela facilidade de acesso do público (central, com ônibus próximo, e em andar térreo).
A criação dos dois Festivais promovidos pela Funalfa, o Nacional e o Cenas Curtas, vem permitir trocas e experimentações (ver outras informações na resposta 2). Temos novos dramaturgos produzindo uma dramaturgia própriaautóctone, e de qualidade! – o que a meu ver é o maior avanço da ultima década. O poder público também traz um novo vigor à área, posto que já tivemos dirigentes culturais extremamente conservadores, elitistas, e mesmo parciais no apoio à realização de projetos e eventos. Esta administração vem trabalhando, dentro do possível, com todas as limitações que enfrentamos no interior, junto com os artistas, pela melhoria da cultura local, e isso não é pouca coisa.
Tivemos a instituição do Conselho Municipal de Cultura, com a elaboração do Plano Municipal de Cultura e a instauração de espaços de diálogo, debate e mobilização (ainda que incipiente) através dos Fóruns das Artes. Tudo isso evidência um avanço significativo. Porém – é claro que tem um porém, sempre tem – a formação, a pesquisa, o olhar crítico (e autocrítico) e, sobretudo, o pensamento precisam ainda evoluir.
O teatro local ainda é um tanto “careta”, a meu ver, pouco antenado com o que acontece de mais novo e contemporâneo que ocorre nos grandes centros (só para lembrar, para trazer o significado que tantas vezes fica estereotipado e banalizado: contemporâneo significa, em primeira instância, aquilo o que está no mesmo tempo histórico que nós. E, vendo determinados trabalhos, fico me perguntando em que tempo histórico nós estamos…).
Muita gente assiste novas linguagens já com uma rejeição instantânea, sem abertura (tanto plateia leiga, quanto “gente de teatro”). A formação a que me refiro aqui é o aprofundamento das técnicas básicas aprendidas, a busca de novas formas de se fazer o teatro, o domínio de técnicas elaboradas, e principalmente a produção de pensamento sobre aquilo o que se faz. Percebo (em pesquisa de campo que realizei recentemente) que o autodidatismo ainda impera, é louvado como sendo algo que baste ao artista. Ele tem seu lugar, é óbvio: o que se aprende na prática e com observação tem raízes profundas em nós, em nosso fazer. Mas chega uma hora em que essa “autossuficiência” esgota suas possibilidades. Sobretudo de desenvolver consciência sobre o que se faz. E, por consequência, de se evoluir.
A teoria é desqualificada por muita gente, inclusive de carreira e relevância reconhecidas. Não falo aqui de uma teoria que suplanta a prática em importância, mas que anda junto com ela, nutrindo-a e sendo nutrida ao mesmo tempo. Ainda somos muito mais práticos que teórico-práticos. Isso empobrece o teatro, o artista, o público. Temos menos espaços do que o necessário, e as casas estão sucateadas e sem equipe técnica suficiente/qualificada.
Outra questão fundamental: estamos numa região do estado empobrecida, fato que reflete diretamente na área cultural – sempre uma das primeiras a sofrer. Em todo lugar é difícil ser artista e sobreviver, mas em Juiz de Fora… Todo artista deveria ganhar uma medalha, rs! A coisa anda bem mais complicada.
Outro ponto que ainda precisa de incremento é a história do teatro local. Estou nesse meio desde 1994, e, conversando com pessoas mais jovens, percebo o quanto fatos e acontecimentos que para mim são ainda “recentes” são completamente desconhecidos por eles! Isso acontecia até dentro do grupo ao qual eu pertencia, em relação ao próprio grupo!! (Fui integrante da Cia. de Atores Academia por 15 anos).
Há algum tempo, para elaborar o histórico da área foi uma labuta! Era quase impossível obter informações confiáveis sobre a história do teatro local. A cada geração, mais e mais informação se perde… Não é registrada, nem transmitida às novas gerações. Com isso, volta e meia vejo gente que acha que está Inventando a roda! Fazendo coisas super arrojadas… Que são um remake do que já foi feito, só que elas não sabem. E mesmo do ponto de vista da mobilização: estamos sempre recomeçando do zero, por ignorância dos fatos perdendo o que já foi feito.
JF Hipermídia – Neste sentido, de que maneira estes festivais promovidos pela PJF podem contribuem para o cenário cultural da cidade
Cintia – O poder público, em qualquer das esferas, tem o dever constitucional de incentivar a cultura, o acesso do público às artes, as trocas culturais, e garantir as condições para o surgimento e o aprimoramento de novas linguagens artísticas. A meu ver, ambos os eventos cumprem, cada um, distintas funções.
O Festival Nacional de Teatro de Juiz de Fora permite a oxigenação da cultura na cidade, ao trazer espetáculos de diversas partes do país e, agora, ao instaurar no município o lugar da crítica – lugar esse que já estava vago há tempos. Ao ver o que está sendo feito em outros municípios, sobretudo sob o prisma da crítica especializada e da troca de ideias dos debates, podemos olhar para nós mesmos com outros parâmetros. Isso nos tira de nosso lugar de conforto, ao qual já estamos habituados, e nos obriga a repensar nosso trabalho e nossa relação com a arte e com o público. As trocas são também favorecidas – mais entre os artistas da cidade, que acabam se encontrando com muito mais concentração e frequência do que o ano todo; e menos com os artistas de fora, que acabam passando rapidamente pela cidade e trocam mais com seus “anjos” – o que também é bom, pois os anjos são artistas locais, muitas vezes no início de seu contato com o teatro, tendo oportunidade de trocar ideias e experiências num momento tão necessário para sua formação, e funcionam como multiplicadores em seus grupos e turmas.
Já o Festival de Cenas Curtas abre espaço para os artistas locais criarem, experimentarem, se arriscarem, se encontrarem, se ajudarem… Essas cenas curtas são o embrião de ideias, linguagens e artistas. Felipe Moratori começou a escrever para o Festival. Tarcízio Dalpra Jr. também se descobriu escritor em um concurso realizado em moldes parecidos, anos atrás, no colégio Academia. Zezinho Mancini arriscou suas primeiras direções cênicas no Cenas Curtas. E isso só para citar três artistas que conheço mais de perto. Outro ponto interessante é o trabalho conjunto de veteranos com iniciantes, vejo aí uma troca rica: experiência por vontade de realizar. Claro que, havendo uma competição, há um clima de disputa no evento, é inevitável. O que não impede que os grupos se ajudem, que artistas participem de mais de um trabalho… O que é, de fato, um panorama melhor do que víamos há alguns anos, com grande isolamento dentro dos grupos, que funcionavam quase como “guetos”.
Ambas as iniciativas trabalham pelo principal ingrediente do teatro: o público. Sobre isso, uma ressalva: a lotação (no CCBM) é pequena, então para caber mais gente acaba-se abrindo mão do conforto da plateia, o que pode jogar contra a formação de público. Aperto, calor, incômodos diversos, barulho… Acabam afastando algumas pessoas. Isso ainda precisa ser solucionado…
JF Hipermídia – Qual a maior diferença entre o Festival Nacional de Teatro e o Festival de Cenas Curtas?
 Cintia – Nossa, difícil elencar uma coisa assim com mais destaque… Acaba que já comparei um pouco os dois, acima. Atualmente, creio que a maior diferença seja o vulto. O Festival Nacional ainda mobiliza muito mais gente, sobretudo de espectadores sem relação com o teatro, e por um período mais longo. Já o Festival de Cenas Curtas acaba ficando mais restrito à classe teatral, seus familiares e amigos, e é mais localizado, tanto especialmente, quanto temporalmente. Outro aspecto que é importante destacar é a questão da competitividade. Como neste ano o Nacional ganhou a característica de mostra não competitiva, ele permite um olhar mais generoso sobre o outro, sobre o trabalho… Enquanto o modelo competitivo do Cenas Curtas causa um certo estranhamento ao se qualificar que uma obra é “melhor” que outra – enquanto, na verdade, como disse o Toninho na premiação, muitas vezes é muito mais uma questão de qual o olhar que está julgando.
JF Hipermídia –Você acha que os dois festivais dialogam de alguma forma?
Cintia – Sem dúvida. Acho que o Festival Nacional alimenta o Cenas Curtas. Porque vendo tanta coisa – boa ou ruim – dá mais vontade de fazer! Porque no Nacional fazemos oficinas e depois queremos exercitar, pôr aquilo em prática. Porque as relações que vão se estabelecendo nas filas, nos botecos após as peças, e em todo canto, durante o Festival Nacional, resultam em pequenos grupos com ideias na cabeça, que resultam nas cenas curtas… Porque, em mão dupla, o Cenas Curtas desponta/aprimora talentos, que podem desembocar em peças e, quem sabe, entrar no Festival Nacional!
JF Hipermídia – Os trabalhos apresentados em ambos festivais interferem na cena cultural da cidade? De que maneira?
Cintia – Sim, mas de maneiras distintas. O Cenas Curtas, dando vazão ao trabalho de artistas locais, dando impulso às suas carreiras, estimulando a criatividade, permitindo que se processem ideias que vão sendo maturadas desde o FNT, e do ponto de vista do trabalho: permitindo a elaboração de cenas que depois podem virar textos ou espetáculos. E o FNT, trazendo ao município novos ares do que vem sendo feito lá fora, oxigenando tanto artistas quanto plateias, abrindo caminhos e puxando as peças locais para novas possibilidades – menos caretas, talvez (risos). Além disso, o FNT também tem um papel fundamental na formação de público: muita gente vai ao teatro pela primeira vez no Festival, ouço frequentemente nas filas, e acaba se tornando público de teatro no restante do ano.
Entrevista por Karina Klippel
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