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Conservar e restaurar para eternizar

A identidade cultural da cidade se interliga através da história de seus habitantes. Grandes nomes como Murilo Mendes ou mesmo personagens desconhecidos reconstroem a memória de Juiz de Fora

2 de julho de 2014

Por Rodrigo Gomes

 

Hoje, o nome do escritor Murilo Mendes está sempre presente no dia-a-dia do juiz-forano. O poeta, ensaísta, crítico de arte e jornalista viveu a juventude na cidade. Embora a tenha deixado cedo, as origens permaneceram presentes em sua obra. O fato é que o escritor modernista tinha um olhar muito à frente de sua época. Por este motivo acabou se lançando no mundo e percorrendo vários países da Europa, se estabelecendo em Roma, onde lecionava sobre Literatura Brasileira.

“Ele era muito irreverente. Essa forma dele enxergar o mundo fez com que tivesse um olhar crítico apurado. Tinha o prazer de ver, depois rever, olhar as coisas enxergando seu potencial. Isso o aproximou muito de grandes artistas”, comenta Valtencir Passos, conservador e restaurador no Museu de Artes Murilo Mendes.

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Retrato de Murilo Mendes por Reis Junior (foto retirada do site do jornal Tribuna de Minas)

Por esta trajetória, colecionou amigos – e muitas obras de arte. O poeta chegava a receber correspondência pessoal e obras de grandes artistas como Cândido Portinari, Pablo Picasso, Juan Miró, Ismael Nery.

Em 1976, no ano seguinte ao falecimento de Murilo Mendes em Portugal, sua esposa doou a biblioteca do poeta com mais de 2800 exemplares à Universidade Federal de Juiz de Fora. Mais tarde, em 1994, com a aquisição de parte de seu acervo de artes visuais, criava-se o Centro de Estudos Murilo Mendes, sediado no prédio antigo da Faculdade de Letras e Filosofia da UFJF.

Desde 2005, o acervo pessoal do poeta – tanto bibliográfico quanto de artes visuais – se encontra no prédio da antiga reitoria da UFJF, atualmente Museu de Arte Murilo Mendes.

O acervo de arte moderna conservado no museu hoje é um dos mais importantes do país, juntamente com o do MAM-RJ e Museu de Belas Artes de SP, necessitando de boa estrutura para abrigá-lo. São obras de importância no cenário mundial e que refletem a boa percepção artística de Murilo Mendes, nítido ao se observar o recorte feito em sua coleção de arte.

“Assim que esse acervo chegou ao Brasil ele passou por catalogação, higienização e reserva técnica. O museu hoje se encontra em nível internacional. As obras estão climatizadas, em condições controladas de umidade e luminosidade.”, comenta Valtencir Passos.

Hoje no prédio há sala de restauração de papel e de artes visuais, que direcionam atenção prioritária ao cuidado destas obras.

A partir deste cenário, outras colaborações foram sendo adquiridas e incorporadas ao local. Hoje há também outros acervos como o de Arthur Arcuri e Gilberto e Cosette de Alencar. Todos abertos para o público e para pesquisa.

 

A história da cidade composta pela simplicidade

Se tanto tempo distante, em outras terras, Murilo Mendes relembrava as origens em Juiz de Fora através de suas memórias transpostas na obra “Idade do Serrote (1968)”, todo e qualquer juiz-forano é personagem importante nessa história. Quando contava sobre o Amarajós, bebum conhecido da época na cidade por atormentar a todos, deixava marcada a história da cidade através da simplicidade traduzida em poesia.

O que motiva o resgate dessas memórias é também incentivador para a descoberta de outras novas e inesperadas.
Lucínea Altomar hoje se considera pesquisadora, apesar de sua formação em contabilidade. O prazer em descobrir o passado e eternizá-lo permitiu a ela encontrar este novo caminho de interesse. Após levar um retrato antigo para restauro que seu pai trouxera de Florença depois de regressar da guerra, se surpreendeu com o cuidado em torno da atividade.

“A principio me espantei com as perguntas e a atenção aos detalhes. Fui questionada a respeito do local em que o retrato estava armazenado, qual a história dele, qual motivo queria restaurá-lo”, comenta Lucínea.

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Valtencir conversa com Lucínia sobre possibilidade de restauração das obras de seu tio

Após a experiência acompanhando a reparação, criou um vínculo forte com o restaurador Valtencir Passos a quem pediu ajuda para orientá-la na montagem de uma exposição que pretende realizar reunindo as obras de um falecido tio.

Contando as histórias do tio, diz que não foi reconhecido pelas obras, mas que esteve presente em vários momentos marcantes da cidade. O carnaval era o foco de sua obra, onde participou ativamente como cenógrafo e produzindo fantasias. A ideia de Lucínea é resgatar a identidade cultural de Juiz de Fora pela ótica dele e contar sobre a presença do rancho no carnaval da cidade.

 

“As vezes dizemos que o artista não é conhecido, mas contando as histórias vamos achando várias conexões com a história de outros e ai tudo vai se encaixando. Com essa ajuda técnica, comecei a me sentir realizada e capaz de exercer esse papel de pesquisadora.”, comenta Lucinea.

Valtencir Passos comenta que o cuidado na restauração é muito importante para manter a identidade do artista. Só se deve restaurar caso necessário e que tenha um sentido claro. Por isto, sempre que chega alguma demanda tem de se fazer essa pesquisa prévia para saber como trabalhar.

Na exposição que se encontra no museu “O artista, o poeta,  o retrato”, ele pesquisou sobre a história de Reis Junior – autor do retrato de Murilo Mendes em exposição – para fazer apenas os ajustes necessários respeitando e mantendo o estilo do artista.

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